sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

CRÔNICA

SAUDAÇÃO AO MESTRE

Joaquim Eloy Santos
Professor

Era comum vê-lo, no seu passo miúdo e firme, andando pelo centro histórico. Em nenhum instante conseguia dar mais de dez passos porque choviam cumprimentos, tapinhas nas costas e alguns paravam com ele e o papo rolava descontraído com muitas risadas e contagiante alegria.
Era comum vê-lo saudar o amigo, o conhecido, o aluno, mesmo que estivesse na outra mão, do outro lado do riacho; seu sorriso atravessava o espaço físico e seu olhar festivo amainava o próprio ruço se o tempo estivesse fechado.
Era comum vê-lo pensando e idealizando futuros, em tempos de provincianismos bestas, para os quais não dava absolutamente qualquer bola. O seu ser revolucionário entendia a mocidade e seus desdobramentos e sabia como trabalhar os anseios de cada um, deitando no seio da vida coletiva a solução da intimidade conflituosa da juventude.
O mestre, o professor, o formador à frente, não se preocupava com desesperadas pecúnias, desejando apenas ser um guia de caminhos, um seguidor de trilhas, um eterno menino desafiando os perigosos estribos dos bondes, para nunca perder o próprio bonde da história.
Coisa, certamente, que não perdeu jamais porque os alunos que ensinou, preparou, acolheu, segurou com braço forte, estão hoje em orfandade, embora vitoriosos em seus fazeres, sob lembranças felizes, ensinamentos corretos e a certeza de vitoriosa vida pela frente.
Era comum vê-lo com seu elegante ensino de português e literatura, somado a tantos outros conhecimentos, dentre os quais, o faro pedagógico brilhante na inteligente soma de ousadias que embalou todas as suas ações de formador da juventude. Falassem, dissessem o que quisessem; nada o tirava do objetivo de educador pronto para séculos vindouros. Em tempos de revolução das técnicas, foi ele o maior de todos os revolucionários, empregando suas teorias, que batiam com o corrente uso, mas possuíam embasamento nos maiores mestres da pedagogia e que, a muitos deles, ultrapassava na praticidade fabulosa da ação.
Era comum vê-lo agarrar as bochechas de seus discípulos em carinhosas ferroadas, que não doíam porque suas mãos eram de esperança, nunca de caos ou deitadas ao negativismo.
O mestre, o professor, o formador à frente, com seu colégio inovador, sua didática alegre e responsável, era de bela e honrada família radicada em Petrópolis, orgulhava-se do pai, uma presença petropolitana marcante na “belle-epoque”, com a mesma calva, o mesmo porte, a mesma contagiante alegria, a soberba inteligência.
Coisa, certamente, não fadada para qualquer um, carro chefe apenas de mentes e corações brilhantes. E tudo estava sintetizado no mestre Geraldo.
Geraldo José Werneck de Carvalho, comum pessoa, cidadão prestante, professor e educador com P maiúsculo, cuja alegria, carinho e amor fará muita falta, muita mesmo, além da conta, porque era comum vê-lo sempre amigo sincero e real, em um mundo egoísta e cruel. Ele sobrava por aqui tanto que resolveu ir embora antes do fim do mundo das profecias.
Só que deixou a gente, por ai, sem ele para animar a vida.
Comum será, doravante, vê-lo na lembrança, no recordar de sua existência, nas trilhas que deixou para todos que amou e formou.

Um comentário:

Oazinguito Ferreira disse...

Caro JEDS,
Prof. Geraldo foi um dos poucos mestres que mesmo para quem não houvesse desfrutado de suas aulas, posicionava-se como professor.
Lembro-me de um de nossos últimos bate-papos ao tomar um café, encontrava-me aborrecido com as vilezas e torpezas dos companheiros que alcançavam o estrelato dos gabinetes e simplesmente esqueciam-se de que um dia frequentaram a sala-de-aula, em resposta ele me inquiriu:
- Lhe faltam alunos?
respondi que não!
ele contra-disse, eis um mestre rico, eu me encontro aposentado, mas quanto não daria para ver o sorriso de gratidão no processo de aprendizagem.
Estes, que seguem de encontro ao gabinete, correm ao ócio, um ócio não produtivo, solitário e ditatorial. Tão logo, serão esquecidos. Enquanto vc será sempre lembrado com um sorriso. Serás eterno!